EVOKE MÚSICA # O FEITICEIRO DO CONGO

Baloji (“bruxo” em swahili) tem sido destacado por publicações renomadas – a exemplo do inglês The Guardian e do norte-americano The New York Times –  como um dos rappers mais inovadores vindos da África nos últimos anos. Nascido no Congo (em 1978) e criado na Bélgica desde os três anos de idade, ficou conhecido por unir ao seu hip hop francês e afrobeat futurista elementos de sua terra natal, mistura única que traz a 11 cidades do Brasil a partir do dia 18 de março.

Aproveitando a deixa do início da venda dos ingressos para o show na capital paulista (22 de março no Sesc Pompeia), que começa nesta quinta-feira, mostramos aqui uma entrevista exclusiva com o músico, cedida a Evoke na parceria  pelo Radiola Urbana, com texto de  Filipe Luna. Com vocês, um pouco da trajetória do novo feiticeiro do Congo.

Baloji voltando às suas origens

Quando adolescente, vivendo a um continente de distância da terra natal, Baloji não queria saber de ouvir soukous ou qualquer outro gênero musical do Congo. O jovem expatriado, residente na Bélgica desde os 4 anos de idade, só tinha ouvidos para o rap. “Para mim, a música africana era dos meus pais, era algo dos mais velhos”, explica. “Eu escutava muito hip hop e R&B e achava que não era legal ouvir aquilo”. A indiferença adolescente à música de seu país era apenas um desvio necessário no caminho. O hip hop acabaria sendo o principal guia para conduzir Baloji de volta aos sons e ritmos de sua cultura. “Gostava de A Tribe Called Quest, NWA, Wu-Tang Clan”, explica. “Depois conheci o rap francês. Isso foi fantástico porque eles falavam de coisas mais próximas a mim, situações pelas quais tinha passado”. Assim como Baloji, muitos dos rappers franceses também são nascidos na África ou de pais africanos.

Neste sentido, “Hotel Impala”, seu primeiro trabalho solo, segue o padrão do hip hop francês. A sonoridade é fortemente influenciada pela estética norte-americana. Baloji é versátil como MC e consegue alternar levadas com criatividade. O disco é muito bem produzido musicalmente, mas não se pode escapar da sensação de que está tudo no lugar certo, até demais. A próxima parada o tiraria da zona de conforto europeia e o lançaria numa viagem musical e pessoal. Este é o destino atual: “Kinshasa succursale”, segundo álbum solo lançado pelo rapper em novembro do ano passado. Para a gravação, ele voltou à matriz e realizou todas as sessões de estúdio no Congo.

O retorno à música africana começou 4 anos antes, em 2007, duas décadas após sua última visita à terra natal. O seu primeiro guia foi o músico camaronês Manu Dibango. Depois de conhecê-lo, Baloji ouviu sua versão para “Independence cha cha”, de Joseph Kabasele e Nicolas Kassanda, canção que se tornou hino do movimento de independência do Congo, nos anos 60. “Isso me trouxe muitas lembranças da infância, quando ouvia essa música todo dia da independência”, conta. “A partir daí, voltei a ouvir muita música do Congo. Gosto muito dos discos gravados no fim dos anos 60, que são mais próximos do jazz do que o soukous”. Baloji voltou ao Congo em 2007 e começou a embarcar na jornada que resultaria, anos depois, em “Kinshasa succursale”.

O projeto era bastante ambicioso: regravar “Hotel impala” em apenas seis dias com a participação de músicos do país. Depois de meses de pesquisas, recrutou artistas como Konono No. 1 e Zaïko Langa Langa para as gravações. Das 15 músicas do primeiro álbum, apenas sete foram regravadas e seis novas canções nasceram dessa experiência intensa. O resultado é um som urgente, a tradução musical do choque de um expatriado com a fervilhante cultura da sua terra natal. O encontro de uma música afrodescendente, o rap, com sua origem mais antiga: a música africana. “Em Kinshasa, tentamos recriar a tensão que existe em cada tomada”, explica. “Ensaiávamos as canções por duas ou três horas e fazíamos cinco ou seis tomadas. Existe pressão, os músicos ficam nervosos. Isso criou uma sensação que não havia no meu primeiro disco, pois foi gravado de uma maneira mais convencional”.

 

O clipe de “Karibu Ya Bintou”, parceria com o Konono No. 1, é a melhor interpretação visual deste encontro. Uma cerimônia religiosa traduz o batismo africano do rapper, seu nome significa feiticeiro. Corte para “Kinshasa”, onde Baloji conduz um soundsystem pelas ruas movimentadas da metrópole congolesa ao som dos instrumentos caseiros do Konono, estilo próprio batizado de Congotronics. São as mesmas ruas onde Muhammad Ali conclamou uma multidão para apoiá-lo numa luta contra George Foreman, em 1974. O vídeo acaba num evento de luta livre, que parece, ao mesmo tempo, mexicano, norte-americano e africano. Assim como na música de Baloji, os limites entre tradição local e cultura ocidental se tornam indefiníveis.

 

Baloji vem ao Brasil no fim de março para mostrar ao vivo o resultado de seu intenso reencontro com a música do Congo. O rapper faz uma turnê longa que passa por Brasília, Belém, Belo Horizonte, São Paulo, Santos, Santo André, Campinas, Porto Alegre, Salvador, João Pessoa, Salvador e São Luís. Leia abaixo, a entrevista completa com o músico:

Como foi crescer distante da sua terra natal e da cultura de lá?
Foi uma experiência estranha porque fui e voltei várias vezes até 1987. Depois, só voltei à África em 2007, foi um período muito longo. Foi uma experiência especial quando era criança porque conheci ambos os lados. Isso me permite transitar entre os dois lugares sem problemas.

Você se sentia perdido entre as duas culturas?
Nem um pouco. Toda a música que faço é baseada nessa ideia de que estar entre dois mundos não significa estar perdido. Eu tinha uma educação, um gosto e uma visão de europeu, mas ainda era um negro na Europa. Não dava pra fingir que não existia uma grande diferença. Quando volto ao Congo, também sou diferente por ter vivido na Europa. A maioria de nós tem problemas para voltar à África porque tentam agir como se não fossem.

Como isso influencia seu trabalho?
Minha música está entre esses dois mundos: é inspirada tanto por Franco como por Jacques Brel. Pela estrutura musical europeia, cresci com isso. Mas quis fazer, neste último disco, algo com a música do Congo que fosse mais próximo de mim.

Como você começou a se interessar novamente pela música do Congo?
Foi um longo processo. Começou com um sample de Manu Dibango no meu primeiro álbum. Conheci-o e conversamos sobre muitas coisas, a influência da música do Congo no seu trabalho. Ouvi a gravação dele de “Independence Cha Cha” (canção que se tornou hino do movimento de independência do Congo em 1960) e isso me trouxe muitas lembranças de quando era criança ouvindo aquela música todo dia da independência. Aí prestei atenção na letra e fiquei impressionado, tem algo muito perturbador ali. Mas a melodia era tão bonita e decidi fazer algo com ela. A partir daí, voltei a ouvir novamente muita música do Congo. Gosto muito dos discos gravados no final dos anos 60, começo dos 70. São mais próximos do jazz do que o Soukos. Normalmente, as pessoas só prestam atenção na música de festa de lá.

Isso fez a sonoridade do seu segundo disco ser diferente do primeiro, certo?
Sim, completamente. O primeiro foi produzido com mais tempo e cuidado nos detalhes, bem mais trabalhado. Nesse segundo, queríamos fazer de uma maneira mais espontânea. Gravamos 14 músicas em 6 dias. Sou um grande fã de soul music e do som do Congo dos anos 60. Li uma entrevista dos Black Keys em que eles diziam que a soul music perdeu seu elemento mais interessante quando as pessoas passaram a fazer overdubs, gravando os instrumentos de maneira separada.

Perdeu-se a sensação de uma banda tocando ao vivo?
Não só isso, mas também a tensão que existe em cada tomada. Tentamos recriar isso em “Kinshasa”. Ensaiávamos as canções por umas duas ou três horas e gravávamos umas cinco ou seis tomadas. Existe pressão, os músicos ficam nervosos. Isso cria uma sensação que não havia no meu primeiro álbum porque foi gravado de uma maneira mais convencional.

Foi uma escolha natural rimar em francês?
Acho que sou mais fluente em francês. Não seria tão fluente em swahili ou tshiluba, embora sejam línguas muito bonitas. Além disso, o francês me dá mais possibilidades. Deve ser o mesmo para vocês com o português. É um idioma mais rico e me permite expressar emoções com mais detalhes.

Como você começou a fazer rap?
Com um grupo de hip hop belga, o Starflam Collective. Começamos treinando no quarto e depois passamos a fazer shows.

O que te atraiu no hip hop?
Primeiro, a estética porque todos meus irmãos eram dançarinos e isso me atraiu. Gostava também do estilo de todos aqueles caras dos anos 90: A Tribe Called Quest, NWA, Wu-Tang. Depois conheci o rap francês. Isso foi fantástico porque eles falavam de coisas mais próximas a mim, situações pelas quais tinha passado. Algo que as canções francesas não traziam para mim. Hip hop é forte por isso, porque fala de situações reais de uma maneira basicamente poética.

Como é a cena rap na Bélgica?
Muito independente, para colocar de uma maneira educada. É muito difícil porque vivemos num mercado com pouco espaço para o rap. A maioria dos artistas tenta soar como Drake ou Lil Wayne, o que é um desperdício. Lil Wayne já existe e ele sempre vai soar melhor do que você. Essa é uma grande questão. Para encontrar sua própria identidade, os rappers copiam. Também é um gênero com o qual o público tem dificuldade para se relacionar porque é uma cultura que aceita o rock. As pessoas ouvem bandas como Pink Floyd e Rolling Stones desde os anos 60. Não é o caso para o rap. Por alguma razão, mesmo que exista há mais de 30 anos, ainda é uma cultura jovem. Isso está mudando nos Estados Unidos, na França e na Inglaterra também. Mas vai levar mais uma década ainda na Bélgica para as coisas mudarem.

Quais suas expectativas para essa turnê no Brasil?
Estivemos em novembro para tocar no Rio de Janeiro. Desta vez, espero tocar com outros artistas, como Criolo. Sou também um grande fã do primeiro álbum de Maria Gadú. Não gosto do segundo, mas o anterior é uma obra-prima. Também adoro “Cru”, de Seu Jorge.

Você vem com a mesma banda dessa vez?
Sim, apenas as backing vocals não vem. Uma pena. A maioria dos músicos é do Congo, mas vivem na Bélgica. Eles não participaram da gravação do último disco, exceto o baixista. Para mim, a apresentação ao vivo é bastante diferente da gravação. Espero que haja uma energia boa, uma boa vibração.

(Por Filipe Luna)

*versão integral da entrevista publicada originalmente no Caderno 2 + Música do jornal O Estado de São Paulo, edição de 11 de fevereiro de 2011

Baloji no Brasil
18 de março – Belém, Teatro da Universidade do Pará
20 de março – Brasília, Caixa Cultural
22 de março – São Paulo, Sesc Pompeia
23 de março – Sesc Santo André
24 de março – Sesc Santos
25 de março – Sesc Campinas
27 de março – Salvador
29 de março – Porto Alegre (Sesc)
31 de março – João Pessoa
2 de abril – Belo Horizonte (Sesc)
3 de abril – São Luiz, Teatro Artur Azevedo


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